Parkinson

Parkinson: Doença do Passado ou Doença com Futuro?

Por: Carolina Rocha

 

Dia 11 de Abril celebra-se o Dia Mundial da Doença de Parkinson. Mas afinal, em que consiste esta doença e de que modo afeta os seus portadores?

 

A Doença

A Doença de Parkinson (DP) é uma perturbação cerebral que recebeu o seu nome em memória do médico inglês que a descreveu no séc. XIX. É definida pela presença de tremores, rigidez no tronco e dos membros e lentidão dos movimentos. A sua prevalência aumenta com a idade, sendo rara antes dos 50 anos e mais comum nos homens que nas mulheres.

Estima-se que esta doença afete cerca de 20 mil portugueses, sendo registados por ano mais de 1800 novos casos. À escala mundial, considera-se que existem entre 7 e 10 milhões de pessoas que vivem com esta patologia e prevê-se que, com o aumento da longevidade da população, a prevalência desta doença aumente nas próximas décadas.

 

Causas

O conjunto de manifestações da DP deve-se à perda de células numa estrutura do cérebro designada Substantia nigra, que é responsável por enviar um neurotransmissor, a dopamina, para uma estrutura próxima, o estriado, através dos prolongamentos das suas células.

A doença resulta então da redução dos níveis de dopamina como consequência da morte das células cerebrais que a produzem e é necessário que ocorra a morte pelo menos 70% das células para que os sintomas da DP se manifestem.  Atualmente, sabe-se que a acumulação da proteína alfa-sinucleína é a responsável pela morte dos neurónios, existindo várias teorias que procuram explicar este mecanismo.

Nas últimas décadas, a Doença de Parkinson tem sido investigada intensivamente, no entanto a sua causa concreta continua ainda desconhecida. A hipótese mais consensual é que esta seja causada por um conjunto de vários fatores, tais como: a história familiar, o envelhecimento e a exposição a pesticidas ou toxinas industriais.

A atual revolução na área da genética está a desempenhar um papel cada vez mais importante na compreensão da doença, revelando que existem dezenas de mutações e variantes da mesma.

 

Manifestações

Uma vez que a dopamina controla a atividade muscular, os sintomas desta doença relacionam-se essencialmente com os movimentos.
A manifestação inicial da Doença de Parkinson é, de um modo geral, um tremor ligeiro numa extremidade quando a mesma está em repouso e geralmente melhora quando o paciente move voluntariamente a zona afetada. À medida que a doença progride, o tremor torna-se mais difuso podendo afetar várias extremidades e até os músculos da face.

A depressão ou ansiedade são frequentes nos pacientes com DP, bem como as perturbações da memória, podendo ainda ocorrer dificuldades visuais, incontinência urinária, alterações na sexualidade, cãibras e dificuldades de mastigação e deglutição. Todos estes sintomas tornam esta doença bastante incapacitante, podendo tornar o paciente dependente de um cuidador.

 

Diagnóstico

O diagnóstico da Doença de Parkinson depende da história clínica e da avaliação neurológica, pois ainda não existe um marcador biológico da doença que possa ser avaliado num teste laboratorial. Perante um quadro sugestivo de DP, realiza-se, por norma, um teste de estimulação com levodopa, sendo que se os sintomas melhorarem durante o mesmo, a probabilidade de se estar perante Doença de Parkinson é elevada.

 

Terapêutica

Embora não exista cura, os sintomas podem ser controlados através de diversos tipos de medicamentos. Os mais comuns estimulam a libertação de dopamina, desde que ainda existam células cerebrais produtoras deste neurotransmissor.

Quando tal não é possível, recorre-se a outro tipo de medicamentos, como a levodopa que alcança o cérebro, transformando-se em dopamina (já que a dopamina tomada oralmente não alcança o cérebro pois não atravessa a barreira hematoencefálica). A eficácia deste tratamento vai-se perdendo ao longo do tempo, tão mais rapidamente quanto maior a dose prescrita, devendo-se por isso adiar o início da terapêutica o mais possível, recorrendo, em alternativa aos fármacos agonistas da dopamina. São alguns exemplos deste grupo: a bromocriptina, o pergolide e o ropinirole. Estes fármacos controlam os sintomas estimulando as células sobreviventes da substantia nigra que passam a funcionar mais activamente.
São igualmente importantes medidas não farmacológicas, tais como: a prática regular de exercício físico e uma dieta equilibrada que permitem a manter a qualidade vida e melhorar o controlo corporal.

 

Futuro

Apesar dos avanços conseguidos, há ainda um longo caminho a percorrer e diariamente muitos investigadores dedicam o seu tempo à pesquisa de novas terapêuticas.

 

Brevemente: Existem bastantes fármacos já em ensaios clínicos que, para além de oferecerem alívio sintomático, podem ser um ponto de viragem no paradigma desta doença. Além disto estão também a ser testadas técnicas de neuromodulação que recorrem ao uso de ímans para enviar um campo elétrico para zonas alvo do cérebro.

 

Terapias no horizonte: No período de 5 a 10 anos podemos estar perante tratamentos revolucionários para esta doença. É um exemplo disso a imunoterapia, na qual se pensa poder usar-se o sistema imunitário para impedir que a alfa-sinucleína se agregue, atenuando ainda as reações inflamatórias naturais que possam danificar os neurónios.

A farmacogenética e a terapia com células estaminais, que permitirão criar medicamentos personalizados para a patologia de cada doente, estão também a ser estudadas para este fim.

 

Tratamentos do futuro: Daqui a mais de 10 anos, certos tratamentos completamente inovadores podem ser uma realidade, como é o caso da Programação Direta, que poderá ser a solução para o problema da neurodegeneração, permitindo mudar tipos de células em organismos vivos. Por exemplo, num doente com DP será possível reprogramar outras células saudáveis da área afetada e transformá-las diretamente em células produtoras de dopamina.

 

É possível concluir que apesar da Doença de Parkinson ter sido descrita pela primeira vez há mais de 200 anos, não se trata de uma doença do passado, e há inúmeros esforços a serem feitos para desenvolver novos tratamentos que tragam aos portadores desta doença uma nova esperança e uma melhor qualidade de vida.

 

 

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